Mancha Verde brilha em noite equilibrada do Acesso 1 no Anhembi

A reedição do samba-enredo de 2012 foi determinante para o forte desempenho da Mancha Verde na avenida e tende a recolocar a escola na elite do carnaval paulistano. A segunda vaga de acesso, porém, deve ser definida voto a voto na apuração, já que as demais agremiações da noite apresentaram desfiles bastante equilibrados.

Dom Bosco de Itaquera e Pérola Negra aparentaram maior rigor técnico e surgem como concorrentes diretas. Vila Maria, Nenê de Vila Matilde, Tucuruvi e Camisa 12 seguem na briga, ao mesmo tempo em que também lutam para evitar qualquer risco de rebaixamento em um grupo altamente nivelado e repleto de escolas tradicionais.

Abrindo o domingo de apresentações, a Camisa 12, de volta ao Grupo de Acesso 1, levou à pista o enredo “Princesas Nagô, Rainhas do Brasil – A origem da fé, Herança de Ketu”. A comissão de frente apresentou figurinos em preto, azul e dourado, acompanhados por três bailarinas com saias rodadas que trocavam de indumentária ao longo do percurso, simbolizando as princesas nagô que chegaram ao Brasil ainda sob o regime escravocrata.

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O primeiro casal realizou uma apresentação segura e vibrante diante do segundo módulo de jurados, com destaque para os giros precisos da porta-bandeira e para a leveza do bailado do par. Com cerca de 30 minutos de desfile, a bateria iniciou sua participação e permaneceu até os 44 minutos. O samba-enredo evoluiu bem nas vozes de Clóvis Pê e Tim Cardoso, enquanto a bateria contribuiu diretamente para fortalecer o canto da comunidade alvinegra.

As alegorias apresentaram bom acabamento e capricho visual. O carro abre-alas surgiu “puxado” por três panteras negras à frente de uma igreja e de uma grande escultura portando arco e flecha. O último carro também chamou atenção: quatro esculturas de ogãs tocando atabaques nas extremidades cercavam um grande Oxalá no centro. A escola encerrou sua passagem com 57 minutos, respeitando o tempo regulamentar.

Vila Maria

Com clara ambição de retornar ao Grupo Especial, a Vila Maria levou à avenida uma homenagem à culinária brasileira. A comissão de frente representou uma feira popular, incluindo barraca de frutas nas cores da escola, com placas de preços, em uma encenação de leitura fácil e que contou inclusive com a participação de uma criança em momentos da coreografia. As duas primeiras alas e o carro abre-alas simbolizaram o plantio e a colheita do milho e do açaí, em tons de roxo, verde e amarelo, acompanhados por esculturas de indígenas e camponeses.

Mancha Verde se sobressai em noite marcada pelo equilíbrio entre as escolas do Acesso 1 2Clayton ReisCadência da Vila

Os ritmistas entraram no recuo aos 26 minutos de desfile e deixaram o espaço aos 42. As baianas vieram integralmente de branco, com detalhes em verde e azul, carregando nas mãos um prato de acarajé.

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O segundo carro alegórico era “puxado” por duas charretes, cada uma conduzida por dois burros. A alegoria também apresentava um grande fogão a lenha, colheres de pau cenográficas e duas esculturas de chefs de cozinha posicionadas na parte traseira. Já no último carro, a proposta era um grande banquete: integrantes da velha guarda ocupavam as laterais, sentados em pequenas mesas de bar, cercados por diversos copos de chope com merchandising da marca de cerveja patrocinadora do Carnaval paulistano. A escola encerrou o desfile com o cronômetro marcando 1 hora, evitando a perda de pontos por apenas cinco segundos.

Tucuruvi

Terceira escola a desfilar no Anhembi no último domingo de Carnaval, a Acadêmicos do Tucuruvi apresentou o enredo crítico “Anti-Herói Brasil”, exaltando a resistência do povo brasileiro. A comissão de frente realizou toda a coreografia no chão: alguns componentes estavam descalços e outros vestiam figurinos confeccionados com sacolas plásticas pretas. A apresentação foi intensa e bastante sincronizada com a letra do samba-enredo. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Luan e Beatriz, fez uma passagem segura, demonstrando entrosamento nos movimentos e firmeza na apresentação do pavilhão da Tucuruvi.

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O carro abre-alas, de extremo bom gosto, surgiu no Anhembi com imponência. Durante a evolução, porém, parte dos elementos decorativos se desprendeu da alegoria e precisou ser retirada em frente ao recuo da bateria — setor que conta com módulo de julgamento. A versátil bateria do Zaca, comandada por mestre Serginho, sustentou o samba-enredo durante toda a passagem da escola. O conjunto entrou no recuo por volta dos 30 minutos de desfile e deixou o espaço aos 44. As alas apresentaram fantasias bastante coloridas, com boa variação de formas.

Um dos destaques foi a ala dos guarda-chuvas, em referência aos bailes funk de São Paulo. Entre os dizeres, aparecia a frase “É o fim 6×1”, crítica à jornada de trabalho com apenas uma folga semanal. Logo depois, outra ala trouxe escudos com a inscrição “Tá em Choque, Malandragem”, além de materiais escolares aplicados nos costeiros, sugerindo a educação como instrumento de enfrentamento às injustiças. A última alegoria exibiu componentes no centro realizando movimentos coletivos, por vezes balançando bandeiras, criando belo efeito visual. Um grande Exu ajoelhado encerrou o desfile da escola da Cantareira.

A Mancha Verde, por sua vez, reeditou o histórico samba-enredo de 2012 e apresentou “Pelas Mãos do Mensageiro do Axé, a Lição de Odu Obará: a Humildade”. Novamente interpretado por Freddy Vianna, o samba foi um dos mais cantados das arquibancadas. A escola também reformulou integralmente a coreografia da comissão de frente em relação ao desfile original, incorporando um elemento alegórico para sustentar a representação dos orixás.

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O primeiro casal da Mancha Verde, Adriana e Thiago, apresentou equilíbrio e leveza ao conduzir o pavilhão da agremiação alviverde, mesmo trajando uma fantasia luxuosa em tons terrosos, aparentemente pesada. A ala das baianas surgiu dividida em quatro fileiras, cada uma com cores distintas — azul, branco, amarelo e vermelho. Já o carro abre-alas impressionou pelo porte gigantesco e pela imponência estética, com predominância de marrom, bege, branco e dourado, em um conjunto visual digno de Grupo Especial.

Mancha Verde se sobressai em noite marcada pelo equilíbrio entre as escolas do Acesso 1 6Mancha Verde

Buscando voltar à elite do carnaval paulistano, a Pérola Negra levou à avenida uma homenagem a Maria Bonita, apresentada como símbolo de coragem, inteligência e ruptura histórica. Na comissão de frente, a coreografia encenou um confronto entre cangaceiros e militares: os grupos se rendiam, apontavam armas e davam sequência ao embate, representando o conflito central da narrativa proposta pelo enredo.

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O primeiro casal apresentou-se com trajes nas cores laranja, dourado, marrom e branco. A performance foi segura e bem sincronizada, sem intercorrências ao longo da coreografia. Destacou-se também a beleza e a originalidade da ala das baianas, com saias vazadas inteiramente em tons de marrom, bege e branco. De maneira geral, as fantasias apresentavam leitura clara dentro da proposta do enredo, muitas delas com costeiros de penas que se movimentavam no ar conforme o balanço dos componentes.

O abre-alas trouxe a figura de Lampião, o cangaceiro, enquanto o segundo carro alegórico exibiu bonecos característicos de Mestre Vitalino e, no alto, uma grande escultura de Luiz Gonzaga. Já o último carro carregava uma escultura de Maria Bonita empunhando um facão. A bateria do Pérola também teve grande desempenho, acompanhada por um carro de som que incorporava a sonoridade da sanfona à melodia do samba. O ponto alto da parte musical do desfile foi o ritmo de xote executado em uma das bossas da Swing da Madá.

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A Nenê de Vila Matilde apresentou no Anhembi o enredo “Encruzas – Nenê de Corpo e Alma no Coração de São Paulo”, inspirado em um dos pontos mais emblemáticos da capital paulista: o cruzamento da Rua Ipiranga com a Avenida São João. A proposta buscou traduzir a atmosfera urbana, a cultura popular e a mística que cercam a tradicional esquina paulistana.

Logo na abertura, a comissão de frente se firmou como um dos grandes trunfos do desfile. O grupo utilizou um tripé cenográfico carregado de referências à boemia, à figura de Exu e ao imaginário da malandragem, sintetizando a mensagem do enredo e introduzindo a escola ao público com clareza narrativa e forte impacto visual.

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Edgar e Graci, apresentou uma coreografia baseada no samba tradicional, com movimentos bem sincronizados, leveza e comunicação eficiente com as arquibancadas. A dupla exibiu carisma durante toda a evolução e desfilou com fantasias em tons de azul, prata e branco, que reforçaram a elegância da apresentação.

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A ala das baianas cruzou o Anhembi vestida em azul e amarelo, posicionada logo à frente de uma imponente águia — símbolo máximo da escola — que dominava o carro abre-alas. A alegoria ainda reunia referências a bondes e ao Teatro Municipal, além da ala das crianças, acomodada no primeiro chassi do grandioso carro. As fantasias apresentaram bom acabamento e leitura clara, transformando a passagem em um verdadeiro festival de cores na avenida.

A bateria de Bambas executou um breque de apagão no refrão principal que empolgou o público no sambódromo. O conjunto entrou no recuo aos 29 minutos de desfile e deixou o setor aos 40. A harmonia da Águia Guerreira da Zona Leste figurou entre as mais consistentes da noite, com a comunidade sustentando o canto com intensidade, conduzida por Tiganá e sua afinada equipe de intérpretes. Houve alguns problemas de evolução ao longo da pista, mas a escola conseguiu concluir a apresentação dentro do tempo regulamentar.

Penúltima a desfilar no sambódromo paulistano, a Dom Bosco apresentou o enredo “Mariama – Mãe de todas as raças, todas as cores. Mãe de todos os cantos da terra”. A agremiação exaltou Nossa Senhora Aparecida sob uma perspectiva negra, reafirmando sua identidade litúrgica e popular. Chamou atenção a bossa na parte final do samba, quando os surdos de terceira sustentaram o andamento enquanto a comunidade entoava com força o melódico samba-enredo.

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Logo na abertura, a comissão de frente apresentou uma coreografia dinâmica, marcada por movimentos de grande precisão. O ápice da encenação ocorreu com a aparição de uma componente representando Nossa Senhora Aparecida no topo do elegante elemento cenográfico.

O primeiro casal, Leonardo e Mariana, manteve o alto padrão inicial do desfile, com figurinos predominantemente dourados. O mestre-sala surgiu com uma capa em forma de rede de pescador, recurso criativo que acrescentou originalidade ao conjunto visual.

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As baianas e o carro abre-alas, que exibia uma escultura de Nossa Senhora com pele negra, seguiram a mesma proposta estética. A alegoria ainda incorporava água na decoração do piso, reforçando a ambientação cênica. Diante da arquibancada monumental, a bateria da Dom Bosco lançou balões de gás hélio que desenharam um belo terço no céu enquanto o cortejo avançava pela pista. As fantasias das alas também chamaram atenção pelo ótimo acabamento; algumas traziam adereços de mão que acrescentavam volume e movimento à evolução. A escola desfilou com tranquilidade dentro do cronograma e encerrou sua apresentação aos 59 minutos.

Faltando cerca de 20 minutos para as 5h da manhã de segunda-feira, a Independente Tricolor iniciou seu desfile, com pequeno atraso provocado por um rastro de água na pista, posteriormente seco pela equipe de limpeza do sambódromo. Com o enredo “N’goma – A Primeira Festa na Manhã do Mundo”, a agremiação apresentou a narrativa sobre o tambor como elemento fundador da cultura brasileira.

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A comissão de frente apresentou um tripé sobre o qual dançavam sete orixás — entre eles Oxalá — acompanhados por outros componentes que completavam a coreografia. O primeiro casal da Independente, Thais e Jeff, realizou uma exibição segura nos movimentos e visualmente encantadora pelas fantasias.

As fantasias da escola, aliás, aproveitaram bem os costeiros, contribuindo para o impacto visual. As alegorias também mostraram bom acabamento, com destaque para o luxo do abre-alas. No encerramento do desfile, chamou atenção a alegria da ala infantil no último carro, que ainda trazia esculturas de ogãs e um grande Xangô no topo da alegoria.

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A bateria Ritmo Forte converteu o Anhembi em um verdadeiro xirê, sobretudo no apagão executado durante o refrão principal do samba-enredo, cantado com intensidade pela comunidade. O conjunto entrou no recuo aos 25 minutos e deixou o setor aos 40. Ainda assim, a escola não conseguiu respeitar o tempo regulamentar e excedeu em um minuto sua apresentação, o que pode resultar na perda de décimos importantes na apuração.

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