Com alta incidência de doenças bucais e dificuldade de acesso ao atendimento, a identificação precoce e adaptação de cuidados tornam-se decisivos para evitar complicações.
Mais de 18,6 milhões de brasileiros vivem com algum tipo de deficiência, o equivalente a 8,9% da população, segundo a PNAD Contínua do IBGE. Já a Organização Mundial da Saúde estima que doenças bucais afetam cerca de 3,5 bilhões de pessoas no mundo, com impacto mais severo entre idosos e pessoas com deficiência. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 41% dos idosos perderam todos os dentes, evidenciando um problema que afeta diretamente a saúde sistêmica dessa população.
A cirurgiã-dentista Dra. Cristiane Vasconcellos, mestre em Clínica Odontológica Integrada e diretora da Odontolar, afirma que a dificuldade vai além da falta de acesso físico aos consultórios. “Muitas famílias enfrentam barreiras no deslocamento, ausência de profissionais preparados e até insegurança em relação ao atendimento. Isso faz com que cuidados básicos sejam adiados e quadros simples evoluam para procedimentos mais graves”, diz.
O problema atinge uma parcela expressiva da população. Entre os brasileiros com deficiência, a maior concentração está nas regiões Sudeste e Nordeste, com predominância entre pessoas acima dos 60 anos, faixa etária que também concentra maior incidência de doenças bucais. Levantamentos epidemiológicos apontam alta prevalência de cárie não tratada e doença periodontal, especialmente em populações de menor renda.
Segundo a especialista, a combinação entre envelhecimento populacional e limitações estruturais do sistema de saúde agrava o cenário. “Quando o paciente já tem um problema neurológico, motor ou cognitivo, a negligência com a saúde bucal acelera complicações. Infecções locais e dor podem evoluir para quadros sistêmicos, como pneumonias aspirativas, desnutrição e até agravamento de doenças cardiovasculares”, afirma.
O diagnóstico tardio é outro fator crítico. Muitos sinais iniciais passam despercebidos por familiares e cuidadores, o que dificulta intervenções precoces. Entre os principais alertas estão sangramento gengival frequente, mau hálito persistente, dificuldade para mastigar, recusa alimentar, presença de feridas que não cicatrizam, além de alterações comportamentais, como irritação ou isolamento, que podem indicar dor.
“Em pacientes com deficiência ou idosos mais fragilizados, a dor nem sempre é verbalizada. Às vezes, ela aparece em forma de mudança de comportamento ou dificuldade para se alimentar. Por isso, a observação diária é fundamental”, explica.
Esse cenário tem impulsionado a expansão de serviços especializados, como o atendimento odontológico domiciliar e hospitalar, além do uso de tecnologias que tornam os procedimentos mais seguros e confortáveis. A especialista atua há mais de duas décadas com foco em odontogeriatria, home care e atendimento hospitalar, levando atendimento especializado e adaptado a pacientes com mobilidade reduzida e necessidades específicas. “Existe uma demanda crescente e ainda pouco atendida. O cuidado com esse público exige técnica, continuidade, previsibilidade e um olhar mais humanizado”, afirma.
Na prática, a rotina de cuidados precisa ser ajustada à realidade de cada paciente, considerando nível de autonomia, limitações físicas e cognitivas e o suporte disponível. A especialista aponta cinco medidas essenciais:
Adaptação de escovas e utensíliosEscovas com cabos modificados, engrossados ou escovas elétricas facilitam a higienização, especialmente em pacientes com limitação motora manual.
Rotina assistida de higieneQuando há dependência, cuidadores devem ser orientados sobre a técnica e a frequência adequada. “A forma como a higiene é feita interfere diretamente no resultado. Pequenos ajustes fazem grande diferença”, explica.
Atendimento domiciliar ou hospitalarLevar o atendimento até o paciente reduz barreiras de acesso e aumenta a adesão ao tratamento, principalmente em casos de mobilidade reduzida.
Uso de tecnologias como a laserterapiaRecursos tecnológicos auxiliam no controle da dor, na cicatrização e no tratamento de lesões, tornando o processo mais confortável.
Acompanhamento preventivo regularConsultas periódicas evitam agravamentos e reduzem a necessidade de intervenções mais complexas. “Prevenir é sempre o melhor caminho, principalmente para pacientes que já enfrentam outras limitações”, afirma.
Além dos benefícios clínicos, o cuidado com a saúde bucal impacta diretamente a autoestima, a interação social e o bem-estar sistêmico. Para familiares e cuidadores, a orientação profissional também reduz riscos e melhora a qualidade do cuidado diário.
“Cada paciente exige um olhar único. Quando o atendimento é bem feito e contínuo, o impacto vai muito além da saúde bucal e transforma a qualidade de vida como um todo”, conclui.
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