Os Acadêmicos do Tatuapé cruzaram o Sambódromo do Anhembi, na última sexta-feira, em desfile pelo Grupo Especial do Carnaval de São Paulo 2026. Quarta escola a entrar na avenida, a apresentação foi marcada pelo forte desempenho da ala musical e pela organização técnica do cortejo, encerrado após 62 minutos. A agremiação levou para a passarela o enredo “Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra”, desenvolvido pelo carnavalesco Wagner Santos.
Tradicionalmente competitiva, a azul e branca apresentou um desfile que equilibrou abordagem social e leveza estética. O tema político foi conduzido sem tom panfletário, destacando benefícios da agricultura familiar, técnicas alternativas de cultivo e a relação do homem com a terra, mantendo o caráter cultural e festivo da comunidade na avenida.

A comissão de frente, coreografada por Leonardo Helmer, representou “O Broto Primordial”. A proposta apostou novamente em linguagem abstrata para iniciar a narrativa do enredo. Um elemento alegórico simbolizava o surgimento da vida, com grande volume e visual rústico, dialogando com as fantasias dos bailarinos. A leitura foi sensorial, convidando o público a imaginar a origem da vida a partir da movimentação coreográfica. O encerramento no primeiro módulo apresentou leve demora para guardar adereços, situação corrigida nos demais setores.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diego Campos e Jussara Souza, surgiu representando o céu. A dupla cumpriu corretamente as obrigatoriedades em todos os módulos observados, inclusive durante a parada parcial da escola para o recuo da bateria. A regularidade do casal mantém a expectativa de notas máximas, repetindo desempenho consolidado nos últimos anos.

A harmonia foi um dos pontos fortes. A comunidade cantou o samba com intensidade e constância do início ao fim, favorecida por evolução tranquila e sem correria. O conjunto transformou o desfile técnico em espetáculo agradável, reforçando a confiança em boas avaliações na apuração.

O enredo contou com apoio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), mas não se restringiu à reforma agrária. A narrativa começou com a criação do mundo segundo crenças indígenas e a figura de Tupã. Em seguida, apresentou a exploração da terra no período colonial, a utilização de mão de obra e os primeiros conflitos sociais. Depois, abordou a agricultura familiar e as lutas por terra, encerrando com a celebração da colheita em clima festivo rural. A leitura visual foi clara, com fantasias funcionando como base cromática para destacar alegorias.

A evolução foi praticamente impecável. A escola manteve fluidez constante e executou o recuo da bateria com precisão, fechando espaços sem prejuízo visual. O quesito, frequentemente decisivo nos últimos carnavais, pode se tornar um trunfo importante na disputa pelo título.
O samba-enredo resultou da fusão das duas obras finalistas, reunindo extensa equipe de compositores, entre eles Turko, Zé Paulo Sierra, Silas Augusto, Rafa do Cavaco, Cláudio Russo, Luis Jorge, Fábio Souza, Dr. Élio, Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Marcos Vinícius, Lucas Donato, Salgado Luz, Daniel Goulart, Fabian Juarez, Fábio Oliveira, Wagner Forte e Chico Maia. A estratégia segue a linha da escola de privilegiar fidelidade narrativa ao enredo. A interpretação ficou novamente sob comando de Celsinho Mody, apoiado pela cantora Keilla Regina, garantindo condução firme e participação intensa da comunidade.

As fantasias buscaram ambientar cada setor temático. O peso narrativo ficou concentrado nas alegorias, transformando os componentes em grande cenário visual. Destacaram-se as alas do algodão e do café, com soluções criativas de materiais e boa leveza para o desfile.
Foram apresentados quatro carros alegóricos: o abre-alas “A Criação de Tupã”, representando a natureza antes da colonização; o segundo carro abordando práticas agressivas de produção agrícola; o terceiro mostrando assentamentos e trabalho coletivo; e o último celebrando a festa da colheita. Observou-se, porém, diferença de acabamento entre o abre-alas, mais detalhado, e a última alegoria, que utilizou excesso de tecido estampado.


A bateria Qualidade Especial, sob comando do mestre Cassiano Andrade, teve bom desempenho com bossas bem executadas. O grande destaque foi a corte liderada pela rainha Muriel Quixaba, fundamental para o recuo preciso e para a manutenção da fluidez do desfile, combinando desempenho técnico e presença cênica.
O Tatuapé apresentou um desfile consistente, de fácil leitura e com forte participação comunitária, características que mantêm a escola como candidata direta nas primeiras posições da apuração.
Foto: Tiago Guidotti / EGOBrazil
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