Quem permaneceu no Sambódromo do Anhembi até os últimos instantes da noite viu o samba literalmente amanhecer. O Vai-Vai, penúltima escola a desfilar, entrou na avenida já com o dia claro e provocou reação imediata do público: arquibancadas em pé, bandeiras balançando e um clima de pertencimento que reforçou a força do Alvinegro.

Após dois rebaixamentos recentes, a agremiação optou por um desfile mais técnico e estratégico do que luxuoso. Em vez de ousadias plásticas, a escola priorizou entendimento fácil e execução correta, favorecida pelo regulamento atual. Com o enredo “Em Cartaz: A Saga Vencedora de um Povo Heróico no Apogeu da Vedete da Paulicéia”, a narrativa foi estruturada como um longa-metragem inspirado na Companhia Cinematográfica Vera Cruz, partindo da ambientação inicial até alcançar clímax e desfecho. O desfile foi concluído em 1h04min32seg, dentro do tempo.

A comissão de frente, coreografada por Priscila Paciência e Diogo Santos, apresentou o quadro “Avant Premiere”. A encenação partia de um grande rolo de filme e trazia personagens clássicos do cinema brasileiro, como Jeca Tatu, Sinhá Moça, Silvia (de “Passionata”) e o Cangaceiro. O conjunto teve leitura clara e boa comunicação com o público, com destaque para a coreografia executada no chão.

O primeiro casal, Pedro Trindade e Mirelly Nunes, defendeu o pavilhão com a fantasia “Identidade de um povo guerreiro”. Com movimentos obrigatórios bem executados e giros leves, o casal dialogou com a letra do samba em momentos específicos, como a marcação do gesto de “parar” diante dos jurados e referências à vedete teatral. O desempenho foi comunicativo e coerente com o quesito.
O canto da comunidade figurou entre os pontos altos. Mesmo no amanhecer, o público acompanhou a escola de ponta a ponta. O intérprete Luiz Felipe conduziu o desfile com intensidade e incentivou as arquibancadas a agitarem bandeiras distribuídas antes da apresentação, ampliando a participação popular, especialmente após o segundo carro.

A proposta do enredo foi desenvolvida como roteiro cinematográfico. A história apresentada pelas lentes da Vera Cruz passou pela ambientação, pelo progresso, atingiu o clímax com a greve operária e terminou simbolicamente em uma cidade ideal. Embora nem todos os elementos tenham sido plenamente compreendidos à distância, as transições foram reconhecíveis e evitaram abstrações excessivas.

Na evolução, a escola iniciou acelerada, demonstrando preocupação com o cronômetro. Já no final, desacelerou para cumprir o tempo mínimo regulamentar. A administração do andamento ocorreu sem desorganização evidente, e o ajuste durante a própria apresentação garantiu o fechamento seguro.
O samba funcionou na avenida por sua facilidade de canto e forte identidade. O tradicional “vai vai vai” teve resposta expressiva da comunidade e das arquibancadas, potencializada pela condução do intérprete e pelo efeito visual das bandeiras.

As fantasias seguiram a proposta de desfile mais técnico. Sem luxo exagerado, apresentaram boa leitura narrativa. O início em preto e branco dialogou com o cinema de época, enquanto os setores finais ganharam cores, representando futuro e utopia. A ala Kizomba destacou-se pelo impacto visual e ocupação da pista, e a bateria com figurinos de operários reforçou o setor industrial.
Nas alegorias, houve irregularidade. O abre-alas apresentou conceito coerente, mas um problema de acabamento deixou parte da estrutura aparente. A iluminação planejada perdeu impacto com a claridade do amanhecer. O segundo carro teve execução mais simples, enquanto o terceiro foi o mais forte, conectando-se ao samba com coreografias e gestos políticos. O último carro simbolizou a cidade ideal, valorizando a Velha Guarda, ainda que novamente prejudicado pela luz natural.
Entre outros destaques, a ala mirim emocionou pela entrega e reforçou a continuidade da tradição. A bateria Pegada de Macaco, comandada por Mestre Tadeu e Mestre Beto, apresentou paradões alinhados ao refrão e bossas bem recebidas. À frente, a rainha Madu Fraga, integrante da comunidade desde antes de assumir o posto em 2023, manteve forte interação com o público.

No conjunto, o Vai-Vai apostou menos em grandiosidade e mais em eficiência. O resultado foi um desfile consistente, sustentado pelo canto e pela comunidade, recolocando a escola em condições reais de disputar posições de destaque.
Foto: Tiago Ghidotti / EGOBrazil
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