Reconhecimento internacional à pesquisadora Aline Lacerda Gruber destaca excelência científica brasileira e escancara crise de incentivos no país.
Enquanto o Brasil enfrenta sucessivos cortes em pesquisa e carece de políticas consistentes para ciência e tecnologia, talentos nacionais continuam a buscar reconhecimento além das fronteiras. A mais recente evidência desse movimento vem da área da saúde: a fisioterapeuta e pesquisadora Aline A. Lacerda Gruber acaba de ser premiada com o título de Outstanding Teaching Assistant I pelo programa Principles and Practice of Clinical Research (PPCR), da Harvard T.H. Chan School of Public Health.
Concedido anualmente a um grupo extremamente seleto de docentes assistentes, o prêmio reconhece desempenho técnico, didático e científico excepcionais na formação de pesquisadores de diversos países. Segundo especialistas, ser selecionado como teaching assistant do programa já é, por si só, um feito que exige excelência acadêmica e domínio técnico avançado. Receber a distinção como destaque absoluto do ano eleva o reconhecimento a um patamar que poucos profissionais alcançam — mesmo em países com tradição científica consolidada.
Talento que migra
A trajetória de Aline, que há anos atua com fisioterapia respiratória pediátrica em instituições como o Hospital Israelita Albert Einstein, é exemplar — e, ao mesmo tempo, simbólica de uma realidade preocupante. Um estudo recente de uma organização internacional de cooperação econômica aponta o Brasil como um dos países que mais perdem pesquisadores qualificados para o exterior. Nos últimos cinco anos, dezenas de milhares de cientistas brasileiros deixaram o país para atuar em centros de excelência na América do Norte, Europa e Ásia.
A falta de financiamento, a burocracia, a instabilidade institucional e a ausência de políticas de longo prazo são apontadas como causas principais. “Desenvolver pesquisa de impacto global no Brasil se tornou exceção”, dizem especialistas consultados pela reportagem. Para publicar em revistas científicas internacionais, liderar estudos multicêntricos ou formar novos talentos, muitos pesquisadores acabam buscando vínculos com instituições estrangeiras, muitas vezes atuando em regime híbrido entre o Brasil e o exterior.
Formação sólida, reconhecimento fora
Além de sua atuação clínica, Aline construiu uma carreira acadêmica consistente. É docente de pós-graduação, examinadora de bancas técnicas e referência no cuidado respiratório infantil. Em 2024, foi convidada a integrar o corpo docente do PPCR, onde atuou como facilitadora e tutora de alunos de mais de 20 países. A premiação recebida consagra uma trajetória marcada pelo rigor científico, pela atualização permanente e pelo compromisso com a educação em saúde baseada em evidências.
Mas a conquista, embora motivo de orgulho, também levanta um alerta. “Quando os profissionais mais talentosos só conseguem prosperar academicamente fora do país, temos um sinal claro de que há algo estruturalmente errado”, afirmou um pesquisador ouvido pela reportagem.

A urgência de cultivar a ciência
Dados do próprio sistema nacional de ciência e tecnologia mostram uma retração dos investimentos federais em pesquisa nos últimos anos. Em paralelo, países concorrentes seguem aumentando os aportes públicos e privados em inovação, criando ambientes mais favoráveis ao avanço técnico e à retenção de talentos.
O paradoxo brasileiro permanece: o país forma profissionais de excelência, mas não oferece estrutura para que desenvolvam seu potencial. A exportação silenciosa de cérebros, embora eventualmente celebrada em prêmios e manchetes, representa uma perda profunda de capital humano e soberania científica.
“Ciência não nasce pronta. Ela precisa ser cultivada. Quando não encontra solo fértil, ela parte”, resume um dos entrevistados.
A trajetória de Aline Lacerda Gruber é prova da potência brasileira — mas também do quanto ainda precisamos fazer para transformar essa potência em permanência.
*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião deste portal.
**É expressamente proibido cópia, reprodução parcial, reprografia, fotocópia ou qualquer forma de extração de informações do site EGOBrazil sem prévia autorização por escrito, mesmo citando a fonte. Cabível de processo jurídico por cópia e uso indevido, esse conteúdo pode conter IA.
Fique por dentro!
Para ficar por dentro de tudo sobre o universo dos famosos e do entretenimento siga o EGOBrazil no Instagram.



