A Colorado do Brás incendiou o Sambódromo do Anhembi no último sábado e apresentou um desfile tecnicamente consistente no Grupo Especial 2026. Com o enredo “A Bruxa Está Solta – Senhoras do Saber Renascem na Colorado”, a escola ressignificou a figura da bruxa como símbolo de mulheres guardiãs de conhecimentos ancestrais. Segunda a desfilar, a agremiação encerrou a passagem em 1h02min51s, dentro do tempo regulamentar, e entrou na disputa pelas primeiras colocações.
A comissão de frente abriu o espetáculo representando o Grande Sabbath, ritual que introduziu o universo místico do enredo. A coreografia apostou em movimentos cerimoniais e fácil compreensão, reforçada por efeitos cênicos como o caldeirão com fumaça. O momento de maior impacto ocorreu quando o personagem principal foi suspenso em um tripé que simbolizava os quatro elementos da natureza, seguido por uma performance solo ritualística.
O casal Brunno Mathias e Jessika Barbosa defendeu o pavilhão com leveza e conexão direta com a narrativa. A dança dialogou com a letra do samba, incluindo gestos simbólicos de “feitiço” e referências à lua cheia, valorizando o aspecto místico da proposta.

Na harmonia, a escola teve desempenho irregular: os apagões elevaram o canto coletivo e empolgaram arquibancadas e componentes, sobretudo nos refrões, mas fora desses momentos a intensidade caiu, mantendo apenas execução correta.
O enredo percorreu o ritual, a perseguição histórica e a valorização contemporânea dos saberes femininos, apresentando diferentes representações de bruxas — do imaginário popular às tradições espirituais — com leitura clara e coerente ao longo dos setores.
A evolução foi fluida na maior parte do desfile, embora um espaçamento grande entre o casal e a ala seguinte diante de jurados tenha quebrado momentaneamente a continuidade, exigindo correção rápida.
O samba-enredo funcionou como base do desfile, com trechos de forte adesão popular, principalmente no refrão “vem ver vai ferver o caldeirão”. Fantasias tiveram acabamento refinado e impacto visual marcante, com maquiagem elaborada e boa narrativa simbólica, apesar de mudanças bruscas de paleta entre setores.

Nas alegorias, o abre-alas sobre a perseguição às bruxas foi o principal destaque, com efeitos pirotécnicos e encenações dramáticas. Também chamaram atenção o carro das curandeiras indígenas, com coreografias rituais, e a “Convenção das Bruxas”, reunindo personagens conhecidos como Cuca e Bruxa do 71, facilitando a identificação do público.
A bateria Ritmo Responsa, comandada por Mestre Acerola de Angola, animou a pista com bossas e interação constante. À frente dela, a rainha Talita Guastelli impressionou pela resistência e técnica ao sambar durante todo o desfile na ponta dos pés, consolidando-se como um dos destaques individuais da apresentação.