Promessas de novos competidores esbarram na complexidade logística, regulatória e cultural do país, enquanto setor segue crescendo e movimentando bilhões na economia
O mercado brasileiro de delivery de comida, um dos maiores do mundo, vive uma nova fase de disputa entre plataformas digitais. Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o segmento de delivery já representa cerca de 40% do faturamento de muitos restaurantes no país, enquanto dados da consultoria Statista apontam que o setor deve movimentar mais de US$ 20 bilhões no Brasil em 2026, consolidando o país entre os maiores mercados globais do serviço. Apesar do potencial bilionário, a chegada de novos competidores internacionais têm revelado dificuldades para operar no país e gerar impacto real para restaurantes e consumidores.
Marcelo Marani, professor, empreendedor do foodservice e fundador da escola Donos de Restaurantes, avalia que parte das expectativas criadas em torno da entrada de novas plataformas globais no Brasil não se concretizou na prática. “Criou-se a narrativa de que um grande player internacional chegaria para revolucionar o delivery no Brasil. Mas quando observamos a operação real, vemos uma expansão lenta e conflitos judiciais logo no início. Isso mostra que entrar no mercado brasileiro exige muito mais do que tecnologia”, afirma.
O setor de alimentação fora do lar no país reúne mais de 1 milhão de estabelecimentos, segundo dados da Abrasel, e emprega aproximadamente 6 milhões de pessoas direta e indiretamente. Nesse ambiente altamente pulverizado, plataformas de entrega se tornaram parte central da operação de milhares de negócios, especialmente após a pandemia. Para muitos restaurantes, aplicativos de delivery passaram a representar a principal fonte de receita.
Na avaliação de Marani, empresas que chegam ao país sem compreender a dinâmica local tendem a enfrentar obstáculos rapidamente. “Entrar no Brasil não é simplesmente replicar o modelo de outros países. É preciso entender a realidade do restaurante de bairro, a logística urbana complexa, a rotina dos motoboys e a própria cultura de consumo do brasileiro”, diz.
A competição entre plataformas costuma ser vista com bons olhos por empresários do setor, já que pode gerar melhores condições comerciais e mais opções de venda. Ainda assim, especialistas apontam que a disputa precisa ir além de anúncios ou campanhas agressivas de marketing.
“Concorrência verdadeira não é fazer barulho na imprensa. É estar presente no dia a dia do dono de restaurante, ajudando a vender mais e organizar a operação. O empresário precisa de parceiros que contribuam para a prosperidade do negócio. Um exemplo do que deu certo no Brasil foi o Ifood, que detem quase 80% do marketshare, operando com excelência em um mercado tão competitivo e desafiador.”, afirma.
Impactos para restaurantes, trabalhadores e consumidores
A dinâmica do delivery influencia diretamente três pilares da cadeia: restaurantes, trabalhadores da logística e consumidores. Para os empresários, a presença de diferentes plataformas pode ampliar o alcance de vendas e reduzir a dependência de um único aplicativo. Porém, quando novos players não conseguem escalar rapidamente, o impacto prático tende a ser limitado.
Funcionários e entregadores também fazem parte dessa equação. O Brasil possui uma das maiores bases de entregadores do mundo, impulsionada pelo crescimento do trabalho por aplicativo. Estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que milhões de trabalhadores atuam em atividades relacionadas à economia de plataformas, incluindo transporte e entrega de mercadorias.
Para o consumidor final, a concorrência costuma trazer benefícios como promoções, redução de taxas e maior variedade de restaurantes disponíveis. Contudo, quando a expansão das plataformas ocorre de forma lenta ou restrita a poucas cidades, esses efeitos também demoram a chegar.
Marani acredita que o mercado brasileiro ainda tem grande espaço para crescimento, desde que as empresas adotem estratégias de longo prazo. “O Brasil não é um laboratório para testar estratégias globais. Aqui existem milhões de trabalhadores e empresários que dependem do delivery para pagar fornecedores, salários e aluguel. Quem quiser disputar esse mercado precisa levar o setor a sério.”

Perspectiva de crescimento
Apesar dos desafios operacionais enfrentados por novos entrantes, o mercado continua em expansão. Pesquisas da consultoria Euromonitor mostram que o delivery se consolidou como um dos principais canais de venda da alimentação fora do lar e deve continuar crescendo nos próximos anos, impulsionado pela digitalização do consumo e pela mudança nos hábitos alimentares.
Para o especialista, o futuro do setor depende da combinação entre inovação tecnológica e compreensão profunda da realidade local. “O delivery brasileiro ainda vai viver seus melhores anos. Mas quem quiser permanecer precisa apresentar planejamento, execução e resultados reais. O dono de restaurante não precisa de discursos. Ele precisa de parceiros que ajudem o negócio a prosperar”, conclui.
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