A educação financeira voltou ao centro do debate acadêmico e das políticas públicas com a divulgação do working paper Financial Literacy and Financial Education: An Overview, publicado em abril de 2024 pelo CESifo e assinado pelos pesquisadores Tim Kaiser e AnnamariaLusardi. O estudo reúne evidências empíricas de mais de uma década de pesquisas internacionais e reforça a relação direta entre alfabetização financeira, comportamento econômico e bem-estar social.
No Brasil, o tema encontra eco no trabalho desenvolvido por iniciativas da sociedade civil. Alessandra Alves Ferreira, especialista em educação financeira e uma das idealizadoras da associação Multiplicando Sonhos, avalia que os resultados apresentados no paper confirmam, do ponto de vista científico, aquilo que projetos de base comunitária observam na prática há anos.
Baixos níveis de educação financeira são um problema global
O estudo destaca que, mesmo em países com mercados financeiros desenvolvidos, menos da metade da população domina conceitos básicos como juros compostos, inflação e diversificação de risco. Essa limitação, segundo os autores, afeta decisões relacionadas a poupança, endividamento, investimentos e planejamento de aposentadoria.
Para Alessandra, esse diagnóstico é especialmente relevante em contextos de vulnerabilidade social. “Quando a educação financeira é ausente, o impacto não é apenas econômico, mas emocional. A insegurança, o medo de errar e a sensação de falta de controle aparecem muito cedo, principalmente entre jovens de baixa renda”, afirma.
Evidências científicas e experiências em sala de aula
O paper revisa mais de 7 mil estudos publicados nos últimos 15 anos e aponta que programas estruturados de educação financeira têm efeitos positivos mensuráveis, sobretudo quando aplicados de forma contínua e contextualizada. Intervenções em escolas, segundo a análise, tendem a gerar ganhos duradouros em hábitos de poupança e planejamento.
Essa conclusão dialoga diretamente com a experiência da Multiplicando Sonhos, que atua desde pelo menos 2019 em escolas públicas de São Paulo. “A pesquisa mostra que programas intensivos, com mais horas de exposição e conexão com a realidade do aluno, funcionam melhor. É exatamente esse o formato que adotamos: encontros sequenciais, linguagem acessível e exemplos do cotidiano”, explica Alessandra.
Jovens, desigualdade e intergeracionalidade
Outro ponto destacado no estudo é a desigualdade no acesso à educação financeira, com lacunas associadas a gênero, renda e nível educacional. As evidências indicam que jovens e populações de menor renda são os grupos mais afetados por essa assimetria.
Segundo Alessandra, iniciativas que combinam educação financeira com troca intergeracional ajudam a reduzir essas distâncias. “Quando adultos mais experientes atuam como facilitadores, cria-se um ambiente de confiança. O jovem percebe que aquele conhecimento não é abstrato, mas algo que pode ser aplicado na vida real”, observa, em referência a programas de voluntariado voltados a pessoas com mais de 50 anos.
Educação financeira como política de longo prazo
O paper também ressalta que os efeitos mais consistentes da educação financeira aparecem no longo prazo, especialmente quando os conteúdos são introduzidos ainda na juventude. Para os autores, isso justifica a inclusão do tema em currículos formais e em políticas educacionais nacionais.

Na avaliação de Alessandra, a discussão precisa ir além da escola. “Educação financeira não é um luxo nem um conteúdo técnico reservado a especialistas. É uma ferramenta de cidadania. Quando um jovem aprende a planejar, ele amplia suas possibilidades de escolha”, afirma.
Convergência entre pesquisa e impacto social
Ao reunir evidências de diferentes países e metodologias, o estudo reforça a importância de programas bem estruturados e adaptados ao contexto local. Para Alessandra, a convergência entre a pesquisa acadêmica e as experiências em comunidades periféricas fortalece o argumento em favor da expansão dessas iniciativas.
“O que a ciência está mostrando agora é o que vemos diariamente em sala de aula: educação financeira muda comportamentos, amplia horizontes e tem potencial de quebrar ciclos de desigualdade”, conclui.
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