Operação local, logística e comportamento do consumidor impõem barreiras que vão além da tecnologia
O Brasil movimenta dezenas de bilhões de reais por ano no delivery de alimentação e está entre os maiores mercados do mundo, segundo estimativas de consultorias internacionais e entidades do setor. Apesar do potencial, a entrada de grandes plataformas globais tem encontrado dificuldades para ganhar escala no país, mesmo com investimentos relevantes e forte presença em outros mercados.
Marcelo Marani, professor e fundador da Donos de Restaurantes, avalia que a principal falha está na forma como essas empresas interpretam o Brasil. Com mais de 25 anos de experiência no foodservice, ele afirma que a dificuldade passa menos pela tecnologia e mais pela adaptação ao ambiente local. “O Brasil já tem tecnologia suficiente. O que falta para quem chega de fora é entender a operação real do restaurante, a dinâmica das cidades e o comportamento do consumidor”, diz.
Na análise do especialista, muitas empresas estrangeiras replicam estratégias de outros mercados sem considerar as particularidades brasileiras. “Existe uma leitura superficial. Copiam o modelo que funcionou fora e ignoram variáveis como logística urbana, custo operacional, informalidade e relacionamento com o restaurante”, afirma.
A complexidade logística é um dos principais entraves. Grandes centros urbanos com trânsito irregular, alta densidade populacional e dependência de entregadores autônomos elevam o custo da operação e impactam prazos. Ao mesmo tempo, o consumidor brasileiro apresenta alta sensibilidade a preço e valoriza conveniência e benefícios. “Não basta ter um aplicativo eficiente. É preciso gerar resultado real para o restaurante, ajudando a vender mais e operar melhor”, aponta.
Outro ponto crítico está na relação com os estabelecimentos. No Brasil, o delivery funciona como extensão do negócio físico e não apenas como canal complementar. “O dono de restaurante não quer só visibilidade. Ele precisa de suporte, estratégia e previsibilidade. Quem não entrega isso perde espaço rapidamente”, explica.
A velocidade de expansão também influencia. Plataformas internacionais tendem a iniciar operações em poucas cidades, enquanto concorrentes locais já operam com capilaridade e conhecimento consolidado. “Abrir operação em algumas capitais não significa competir de verdade. É preciso presença consistente e entendimento profundo do mercado”, destaca.
Para empresas que atuam ou pretendem entrar no delivery brasileiro, o desafio envolve decisões estratégicas que impactam diretamente a sustentabilidade da operação. A seguir, cinco pontos críticos destacados pelo especialista.
O especialista aponta cinco fatores que explicam onde empresas acertam ou erram ao entrar no delivery brasileiro
Antes de escalar, é necessário estruturar bases sólidas que sustentem o crescimento. Decisões iniciais costumam determinar o desempenho no médio prazo.
- Entendimento do comportamento local
Empresas que analisam hábitos de consumo, horários de pico e preferências regionais conseguem maior aderência. Ignorar essas variáveis reduz a conversão. “O brasileiro tem uma relação diferente com preço, tempo e experiência. Quem não entende isso perde competitividade”, afirma. -
Integração com a operação do restaurante
A plataforma precisa atuar como parceira do negócio, oferecendo dados, suporte e estratégias. “Quando o restaurante cresce, a plataforma cresce junto. Essa relação precisa ser construída”, diz. -
Logística adaptada à realidade urbana
Modelos importados nem sempre funcionam em cidades com infraestrutura desigual. Ajustar rotas, prazos e custos é essencial para garantir eficiência operacional. -
Estratégia comercial equilibrada
Taxas, promoções e políticas precisam preservar a margem do restaurante. “Se o parceiro não ganha dinheiro, ele abandona a plataforma. É simples”, afirma. -
Execução consistente no dia a dia
Mais do que lançamento e marketing, o mercado exige constância operacional. “Concorrência real acontece na entrega, no suporte e no resultado. Não é discurso, é execução”, diz.

Além de orientar empresas de tecnologia, os pontos também servem como referência para restaurantes na escolha de parceiros. Avaliar transparência de taxas, capacidade de gerar demanda e integração com a operação são critérios considerados essenciais.
A tendência é de crescimento contínuo do setor, impulsionado pela digitalização e pela mudança de hábitos de consumo. A consolidação, porém, deve ficar restrita a quem conseguir adaptar estratégia e execução ao mercado brasileiro. “O Brasil não é um mercado de teste. É um dos mais complexos do mundo. Quem respeita isso constrói negócios sólidos. Quem subestima, dificilmente se sustenta”, conclui.
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