Depois de bater na trave por anos e acumular quatro vice-campeonatos entre 2006 e 2020, a Acadêmicos do Grande Rio enfim escreveu seu nome na história ao conquistar, em 2022, o primeiro título do Grupo Especial do Rio de Janeiro. A vitória veio com um desfile marcante, considerado um dos mais impactantes da década, ao levar para a Marquês de Sapucaí uma narrativa potente sobre Exu, celebrada por crítica e público.
O prestígio adquirido manteve a escola de Duque de Caxias em evidência nos anos seguintes. Em 2025, a tricolor deixou a avenida como grande favorita ao campeonato. A leitura das notas confirmava esse cenário até os últimos quesitos, mas duas avaliações 9,9 atribuídas à bateria comandada por Mestre Fafá impediram um bicampeonato praticamente certo. A principal concorrente, a Beija-Flor de Nilópolis, sofreu penalizações em três quesitos, porém foi beneficiada pelo sistema de descartes e terminou apenas um décimo à frente.
Para tentar recuperar o protagonismo, a agremiação decidiu mudar completamente a abordagem estética e temática. A aposta passou a ser o Manguebeat, movimento cultural surgido em Pernambuco e responsável por uma das maiores revoluções musicais brasileiras das últimas décadas.

A revolução cultural do Recife
Há cerca de 25 anos, o país assistiu ao nascimento de uma nova linguagem artística na cidade do Recife. O Manguebeat propunha reorganizar a música nacional ao unir tradição regional com referências urbanas contemporâneas. Seus principais nomes foram Chico Science e a banda Nação Zumbi, que lançaram em abril de 1994 o álbum Da Lama ao Caos.
A obra misturava maracatu, cultura popular nordestina, funk rock, hip-hop, batidas eletrônicas e guitarras pesadas. O disco tornou-se símbolo do movimento e abriu espaço para o rock brasileiro dos anos 1990, além de abordar desigualdade social e transformações urbanas. A repercussão foi tamanha que o trabalho entrou em listas históricas de melhores álbuns da música brasileira.
Logo na abertura, Science apresenta a proposta do movimento ao defender que “modernizar o passado” era uma evolução artística — ideia central do Manguebeat: ressignificar tradições regionais com linguagem contemporânea. As letras valorizavam espontaneidade e sentimento na criação musical, rejeitando a necessidade de formalismo acadêmico.
Em canções como “Banditismo por uma questão de classe”, o compositor questionava a violência e criticava discursos institucionais, apontando a desigualdade social como fator determinante da marginalização. Já “A Cidade”, com base rítmica inspirada no maracatu e guitarra de Lúcio Maia, retratava o crescimento urbano e a segregação social, sintetizada no refrão que descreve um lugar onde os ricos enriquecem enquanto os pobres afundam.
Legado interrompido e continuidade

A trajetória de Chico Science foi interrompida precocemente em 2 de fevereiro de 1997. O artista morreu aos 30 anos após um acidente de carro na estrada entre Recife e Olinda. Socorrido ao Hospital da Restauração, não resistiu aos ferimentos múltiplos. O sepultamento ocorreu no dia seguinte, no Cemitério de Santo Amaro, no Recife.
Mesmo com a perda, a Nação Zumbi decidiu manter o trabalho musical e preservar a proposta cultural do movimento, garantindo a continuidade do Manguebeat e consolidando sua influência sobre gerações posteriores.
Ao levar essa narrativa para a avenida, a Grande Rio busca mais do que um desfile competitivo: pretende traduzir uma revolução cultural brasileira em linguagem carnavalesca. A combinação entre crítica social, identidade regional e musicalidade forte pode novamente colocar a escola de Caxias entre as principais candidatas ao título.
As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e podem não necessariamente expressam a opinião deste portal.
É expressamente proibido cópia, reprodução parcial, reprografia, fotocópia ou qualquer forma de extração de informações do site EGOBrazil sem prévia autorização por escrito, mesmo citando a fonte. Cabível de processo jurídico por cópia e uso indevido, esse conteúdo pode conter IA.
Fique por dentro!
Para ficar por dentro de tudo sobre o universo dos famosos e do entretenimento siga o EGOBrazil no Instagram.



