Dados oficiais mostram avanço da presença feminina no mercado e intensificação da carga laboral; lideranças defendem mudança estratégica no RH e na governança corporativa
As mulheres brasileiras estão trabalhando mais e se aproximando do padrão internacional de horas dedicadas ao trabalho remunerado. Levantamento com base em dados de 160 países organizados pelos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley, analisado no Brasil pelo economista Daniel Duque, aponta que, nos anos 1990, as brasileiras trabalhavam até seis horas a menos do que o esperado para países com produtividade e estrutura demográfica semelhantes. Essa diferença foi reduzida de forma consistente nas últimas décadas.
Entre as mais jovens, o movimento é ainda mais evidente. No grupo de 15 a 19 anos, mulheres no Brasil trabalham, em média, uma hora e 48 minutos a mais do que o padrão internacional ajustado à produtividade e à demografia do país.
O avanço da carga laboral feminina ocorre em paralelo ao crescimento da participação das mulheres no mercado. Dados da PNAD Contínua, do IBGE, indicam que a taxa de participação feminina na força de trabalho ficou em torno de 53% em 2023. As mulheres também são maioria no ensino superior, representando mais de 57% das matrículas, segundo o Censo da Educação Superior 2023, do Inep.
Apesar do aumento da qualificação e presença, a desigualdade salarial permanece. O IBGE aponta que as mulheres recebem, em média, cerca de 21% menos que os homens no rendimento habitual do trabalho principal. Além disso, dedicam quase o dobro do tempo ao trabalho doméstico não remunerado: 21,3 horas semanais, contra 11,7 horas dos homens.
Para Carla Martins, especialista em gestão de negócios e crescimento empresarial e vice-presidente do SERAC, os dados indicam que as empresas precisam rever sua estrutura de gestão. “A mulher está mais qualificada, mais presente e trabalhando mais. Se o modelo de governança não evoluir, haverá impacto direto em retenção, desempenho e clima organizacional”, afirma.
Ela defende que o RH atue com métricas claras e planejamento estratégico. “Datas simbólicas como o Dia da Mulher precisam provocar revisão de indicadores internos. Promoção, sucessão, remuneração e desenvolvimento de lideranças femininas devem estar no centro da estratégia”, diz.
Relatório da McKinsey & Company sobre diversidade corporativa mostra que empresas com maior presença feminina na liderança têm até 25% mais probabilidade de apresentar desempenho financeiro acima da média do setor. “Diversidade bem estruturada gera resultado mensurável. Não é discurso, é performance”, afirma Carla.
No setor da saúde e da educação empresarial, a empresária e psicóloga especializada em mentalidade de alta performance Fernanda Tochetto, fundadora do Tittanium Club, ecossistema voltado a médicos, profissionais da saúde, mentores e empresários, afirma que o conceito de mulher de alta performance mudou nos últimos anos.
“Alta performance não é a mulher que trabalha 14 horas por dia e vive exausta. Hoje, isso se traduz em ter clareza de metas, domínio emocional, equilíbrio, organização estratégica e capacidade de delegar”, diz.
Segundo Fernanda, o cenário atual exige competências específicas. “Ela precisa saber gerir indicadores, estruturar processos, liderar equipe e tomar decisões com base em dados. Ao mesmo tempo, precisa proteger sua energia e estabelecer limites. A performance sustentável é aquela que equilibra resultado com saúde mental”, afirma.
Ela observa que, especialmente na área da saúde, muitas mulheres acumulam função técnica e administrativa sem preparação para a gestão. “A médica, por exemplo, é treinada para atender pacientes, mas nem sempre para liderar uma clínica. Quando aprende gestão, estrutura metas e cria rotina estratégica, ela reduz sobrecarga e amplia resultado”, diz.
Para Fernanda, mentalidade de alta performance envolve três pilares: visão estratégica, inteligência emocional e execução disciplinada. “Não é sobre fazer tudo sozinha, mas sim construir um sistema que funcione sem depender da sua exaustão”, afirma.

Ela acrescenta que o aumento das horas trabalhadas no Brasil torna ainda mais urgente essa mudança de mentalidade. “Se os dados mostram que as mulheres estão trabalhando mais, precisamos ensinar como trabalhar melhor. Caso contrário, o crescimento profissional virá acompanhado de adoecimento”, alerta.
No campo jurídico e corporativo, Jéssica Palin Martins, psicóloga e advogada especializada em saúde mental corporativa e sócia da consultoria Palin & Martins, afirma que a intensificação da jornada feminina tornou a saúde mental uma pauta estratégica.
Dados do Ministério da Previdência Social indicam que, em 2023, mais de 288 mil benefícios por incapacidade temporária foram concedidos por transtornos mentais e comportamentais, número superior ao registrado antes da pandemia. “Quando combinamos jornadas extensas, responsabilidade profissional e carga doméstica, temos um cenário de risco organizacional”, afirma.
Segundo ela, empresas precisam incorporar saúde mental à governança. “Políticas de prevenção, escuta ativa e acompanhamento de clima organizacional não são benefícios opcionais, são instrumentos de gestão”, diz.
A aproximação das brasileiras ao padrão mundial de horas trabalhadas revela maior protagonismo feminino no mercado. Ao mesmo tempo, expõe a necessidade de revisão estrutural nas organizações.
Os números reforçam que o debate não pode ser apenas simbólico. A intensificação da jornada feminina já é realidade estatística. O desafio agora, segundo as especialistas, é transformar esse avanço em liderança sustentável, com estratégia, reconhecimento e equilíbrio.
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