Psicologia pré e perinatal explica por que toda experiência de parto importa e como intervenções necessárias também deixam registros emocionais no corpo
A forma como um bebê nasce vai além de um evento médico. Para a psicologia pré e perinatal, o nascimento é uma experiência fundante, vivida pelo corpo em sua totalidade, capaz de deixar registros que acompanham a pessoa ao longo da vida. Cesárea, parto vaginal, uso de fórceps ou outras intervenções fazem parte desse início e podem influenciar, em diferentes níveis, a maneira como o indivíduo se relaciona consigo mesmo e com o mundo.
Segundo Manoel Augusto Bissaco, especialista em psicologia pré e perinatal, é importante ampliar o olhar e evitar a ideia de que apenas um tipo de parto gera impactos emocionais. “Toda forma de nascimento importa. Não existe parto neutro do ponto de vista emocional, nem um tipo pior do que o outro. O que muda são as experiências corporais vividas naquele momento”, explica.
O especialista reforça que o debate não deve ser interpretado como uma crítica às intervenções obstétricas. “Não estamos demonizando cesáreas, fórceps ou qualquer outro recurso médico. Muitas vezes, essas intervenções salvam vidas, e isso é indiscutível. O ponto é que, mesmo quando salvam vidas, elas também geram experiências intensas para o bebê, que ainda não podem ser medidas ou avaliadas emocionalmente”, afirma.
Na medicina, os principais indicadores analisados após o nascimento são fisiológicos, como o índice de Apgar e sinais de sofrimento fetal. No entanto, não existem exames capazes de avaliar como o sistema nervoso do recém-nascido está assimilando aquela experiência ou quais registros emocionais estão sendo formados. “O corpo registra o que a mente ainda não consegue simbolizar. O bebê não tem memória consciente, mas tem memória corporal”, diz Bissaco.
Dentro desse contexto mais amplo, o parto com fórceps pode ser citado como um exemplo de intervenção que costuma chamar atenção por envolver tração, pressão e, muitas vezes, um cenário de urgência. “O fórceps geralmente é utilizado quando há dificuldade na progressão do parto ou risco para mãe e bebê. Para o recém-nascido, essa experiência pode ser vivida como algo abrupto, com sensação de aceleração ou perda de controle”, explica.
Na prática clínica, esses registros iniciais podem se refletir em padrões comportamentais observados ao longo da vida, conhecidos como tendências associadas à chamada “personalidade do fórceps”. Bissaco faz questão de ponderar que não se trata de rótulos ou determinismos. “São tendências observadas em consultório, nunca uma regra. O parto influencia, mas não define ninguém”, ressalta.
Entre os relatos mais frequentes estão sensações de urgência constante, dificuldade em respeitar o próprio ritmo e uma tendência à hiperadaptação. “Algumas pessoas vivem como se precisassem resolver tudo rapidamente, mesmo quando não há pressão real. Em terapia, muitas vezes percebemos que essa lógica corporal começou muito cedo”, afirma.
A relação com figuras de autoridade também pode aparecer de forma simbólica. “Quando o nascimento envolve uma intervenção externa intensa, isso pode se refletir mais tarde em uma relação ambígua com autoridade, alternando entre submissão, resistência ou a sensação de precisar sempre de alguém externo para ‘puxar’ decisões importantes”, observa.
Bissaco destaca que essas marcas não são exclusivas do fórceps. Cesáreas, partos vaginais longos, rápidos ou considerados naturais também podem deixar registros emocionais. “Até partos sem intervenção podem gerar marcas, dependendo do contexto, do nível de estresse, do ambiente e da vivência do bebê. Nenhum tipo de parto está isento”, explica.
O papel da psicologia pré e perinatal é justamente ajudar a dar sentido a essas experiências. “Quando a pessoa entende que certos padrões emocionais têm raízes muito antigas, ela ganha mais autonomia. O corpo deixa de repetir automaticamente aquilo que um dia foi apenas uma resposta de sobrevivência”, afirma.
Para o especialista, falar sobre nascimento e memória corporal é ampliar o conceito de saúde emocional. “Ainda separamos corpo e mente como se fossem coisas distintas. O início da vida mostra que essa separação não existe. A maneira como nascemos comunica algo sobre como aprendemos a estar no mundo”, conclui.
O debate, portanto, não é sobre idealizar ou condenar formas de parto, mas sobre reconhecer que cada nascimento deixa marcas e que todas elas podem ser elaboradas ao longo da vida, com escuta, consciência e acompanhamento psicológico adequado.
As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e podem não necessariamente expressam a opinião deste portal.
É expressamente proibido cópia, reprodução parcial, reprografia, fotocópia ou qualquer forma de extração de informações do site EGOBrazil sem prévia autorização por escrito, mesmo citando a fonte. Cabível de processo jurídico por cópia e uso indevido, esse conteúdo pode conter IA.
Fique por dentro!
Para ficar por dentro de tudo sobre o universo dos famosos e do entretenimento siga o EGOBrazil no Instagram.



