A cada carnaval, a mesma pergunta retorna com força: por que tanta exposição do corpo? A resposta é mais profunda do que parece e passa longe da vulgaridade que alguns insistem em enxergar. O carnaval sempre foi, antes de tudo, um território de expressão. E o corpo é sua principal linguagem.
Na avenida, o corpo não surge como convite, mas como narrativa. Ele conta história, traduz força, celebra identidade e rompe silêncios. Desde suas origens, o carnaval nasce do movimento, do ritmo e da presença física. É o corpo que dança, que sustenta o samba, que atravessa o calor, o tempo e o olhar do outro sem pedir autorização.

É nesse contexto que Isis Camargo , musa fitness da escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi, ocupa a avenida com consciência e postura. Sua presença não é improviso, nem apelo gratuito. É escolha. É construção. É domínio do próprio espaço.
A fantasia revela, sim. Mas revela porque o carnaval permite. E mais do que isso, porque a mulher decidiu revelar. Existe uma diferença fundamental entre ser exposta e se expor. Isis não é conduzida pela fantasia. Ela conduz a fantasia. Seu corpo não está ali para ser consumido, mas para ser visto como potência, preparo, estética e afirmação.

O incômodo que isso gera diz mais sobre quem observa do que sobre quem desfila. Durante décadas, o corpo feminino foi aceito apenas quando controlado, suavizado ou enquadrado. No carnaval, esse controle cai. E quando cai, a mulher deixa de ser decorativa e passa a ser protagonista. É exatamente aí que nasce a polêmica.
Empoderamento não está em esconder o corpo, mas em ter autonomia sobre ele. Respeito não está na quantidade de pele à mostra, mas na postura, na intenção e no contexto. Isis Camargo desfila com segurança, olhar firme e consciência de quem sabe o que representa. Não há submissão no gesto, não há fragilidade na imagem. Há presença.

O carnaval não expõe o corpo para reduzir a mulher. Expõe porque é um dos poucos espaços onde ela pode existir inteira, sem pedir permissão, sem pedir desculpa, sem caber em moldes alheios.
E talvez o verdadeiro debate não seja sobre o quanto se mostra, mas sobre o quanto ainda incomoda ver uma mulher confortável com o próprio poder.


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