Separações como a de Virgínia Fonseca e Zé Felipe revelam como projetamos nas celebridades nossas próprias esperanças afetivas.
Por Juliana Conti Elias – Psicóloga e Psicanalista | CRP 06/139348
Nos últimos dias, a separação de Virgínia Fonseca e Zé Felipe tomou conta das redes sociais, dominando timelines com comentários, lágrimas e memes. Como já aconteceu em outros términos de casais famosos — como Sandy e Lucas, Bonner e Fátima, Thiaguinho e Fernanda Souza — o fim de uma relação vira espetáculo coletivo. Mas afinal, o que explica esse abalo emocional generalizado diante de romances que nem sequer vivemos?

Em um mundo saturado por imagens e narrativas idealizadas, os relacionamentos dos famosos funcionam como espelhos de nossos próprios desejos. Eles representam o amor que gostaríamos de viver: jovem, bonito, bem-sucedido e aparentemente equilibrado. Quando esse sonho se desfaz publicamente, sentimos que algo dentro de nós também ruiu.
A psicanálise ajuda a entender esse fenômeno. Para Freud, o amor é um investimento narcísico — amamos aquilo que espelha o que gostaríamos de ser. Melanie Klein, por sua vez, mostra que idealizamos figuras importantes desde a infância para nos sentirmos seguros. Já Donald Winnicott fala da “ilusão necessária”, que sustenta a fantasia de controle sobre o mundo, mas que precisa ser desfeita para amadurecermos.
O problema? Nas redes sociais, a ilusão não se desfaz — ela se vende. E quando o casal perfeito falha, o erro vira escândalo.
A psicanalista Ana Suy aponta para a fragilidade dos laços líquidos: relações marcadas por idealizações frágeis e pouca tolerância à frustração. O filósofo Christian Dunker também destaca a era da performance emocional, em que se sorri para a câmera, não para o parceiro. O amor vira palco; a dor do outro, conteúdo viral.
O psicanalista Contardo Calligaris já alertava para os perigos do romantismo idealizado: muitos sofrem não pela ausência de amor, mas pela ilusão de que amar é viver em estado de êxtase contínuo. Diante do primeiro conflito, é mais fácil deslizar para o próximo match.

O fim do casal famoso, então, nos afeta porque quebra a fantasia de que “se eles conseguem, nós também conseguimos”. Se nem eles, com todos os privilégios, deram certo, que esperança nos resta?
Mas talvez estejamos olhando para o lugar errado.
O amor verdadeiro não vive de hashtags, nem de Reels. Ele se sustenta no cotidiano, no cuidado mútuo, nas conversas difíceis e nas frustrações inevitáveis. Quando vivemos apenas pelas telas, corremos o risco de adoecer fora delas — perdendo o vínculo com o que é real, humano e imperfeito, mas possível.
Como psicóloga e psicanalista, percebo no consultório como essas idealizações afetam a vida real das pessoas. Muitos comparam seus relacionamentos com os das redes, sentem-se insuficientes e acreditam que o amor precisa ser espetacular para ser verdadeiro. Mas amar não é performar. É sustentar o encontro, mesmo sem moldura perfeita.
É hora de retomar o valor dos vínculos reais — aqueles que não precisam ser postados para existirem.
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