Médico de família, diretor clínico e pesquisador, Dr. Lucas Pedroza Daniel tem dedicado sua carreira a traduzir crises complexas em protocolos de sobrevivência. Com uma trajetória que une a linha de frente do SAMU à gestão hospitalar, ele é o autor da obra “A Epidemia Invisível: Enfrentando o Fentanil” (2025), onde analisa profundamente a crise dos opioides e propõe estratégias que devolvem à família o protagonismo no tratamento. Nesta conversa, Lucas explica por que o conhecimento técnico é a ferramenta mais potente para evitar que o silêncio da dependência se transforme em tragédia.
Pergunta: Dr. Lucas, em seu livro “A Epidemia Invisível”, o senhor trata o fentanil como um desafio que ultrapassa as paredes dos hospitais. Por que essa substância exige uma atenção tão específica da Medicina de Família?
Dr. Lucas: O fentanil mudou a dinâmica das overdoses porque ele é, literalmente, invisível aos sentidos; não tem cheiro ou gosto e pode estar camuflado em medicamentos que parecem legítimos. Como pesquisador, vejo que a resposta não pode ser apenas a emergência na UPA. A Medicina de Família entra para monitorar o território, identificar o risco antes da crise e, principalmente, preparar o ambiente doméstico para ser um posto avançado de cuidado.
Pergunta: O senhor defende que a família não é apenas uma rede de apoio, mas o próprio “antídoto”. Como isso funciona na prática clínica?
Dr. Lucas: Tratar a dependência química sem treinar a casa é como dar alta a um paciente cirúrgico sem explicar os cuidados com o curativo. A família é o antídoto porque é quem percebe a mudança no padrão de sono, quem controla a adesão aos retornos médicos e quem pode administrar a naloxona em segundos. Quando a casa está informada, a recaída deixa de ser vista como um fracasso moral e passa a ser tratada como um “ajuste de plano” técnico.
Pergunta: No seu trabalho com Inteligência Artificial e protocolos de urgência, como o senhor simplifica a resposta a uma overdose para alguém que não é da área da saúde?
Dr. Lucas: O segredo está na psicoeducação objetiva: transformar a complexidade em passos claros. Ensinamos a família a reconhecer o padrão da depressão respiratória — respiração lenta, corpo mole e pupilas puntiformes — e a agir imediatamente: ligar para o socorro (911/192), manter a pessoa de lado e não hesitar em ajudar. A ciência aplicada à beira do leito ou no sofá da sala serve para o mesmo propósito: ganhar tempo e salvar vidas.
Pergunta: Qual a lição fundamental que o senhor espera que os leitores e pacientes levem ao compreender a crise do fentanil?
Dr. Lucas: Que o estigma mata tanto quanto a droga. Uma família que julga, afasta o paciente do cuidado; uma família que se capacita, cria uma barreira de proteção. O tratamento bem-sucedido combina a medicação necessária com um pacto de segurança transparente dentro de casa. A “epidemia invisível” só é vencida quando trazemos o debate para a luz, com ciência, protocolos e acolhimento.
Tornando o Invisível Visível
Para o Dr. Lucas Pedroza Daniel, o enfrentamento ao fentanil não se encerra na administração de um antídoto ou em uma internação isolada. A verdadeira cura reside na quebra do estigma e na construção de uma rede de vigilância afetiva e técnica. Ao transformar a família em um agente de saúde capacitado e ao levar a ciência para o centro do debate doméstico, Lucas propõe um caminho onde o medo é substituído pelo protocolo. No fim das contas, a “epidemia invisível” só retrocede quando a informação correta encontra o acolhimento necessário, provando que, na medicina de família, o conhecimento compartilhado é, de fato, a ferramenta mais potente para salvar vidas.
*Lucas Pedroza Daniel — médico de família e comunidade, diretor clínico da UPA Quietude (desde 08/2022), pós-graduado em MFC (UFCSPA), CRM-SP 198025, membro da SBMFC.
As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e podem não necessariamente expressam a opinião deste portal.
É expressamente proibido cópia, reprodução parcial, reprografia, fotocópia ou qualquer forma de extração de informações do site EGOBrazil sem prévia autorização por escrito, mesmo citando a fonte. Cabível de processo jurídico por cópia e uso indevido, esse conteúdo pode conter IA.
Fique por dentro!
Para ficar por dentro de tudo sobre o universo dos famosos e do entretenimento siga o EGOBrazil no Instagram.



