Há 60 anos nascia Cássia Eller, voz de trovão da música brasileira

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Depois de bebericar um copo com água, Cássia Eller bochechava o conteúdo e logo cuspia na plateia, enquanto, com a outra mão, bolinava uma garrafa de uísque. Entrava no elevador de seu prédio como veio ao mundo, ou, para os desentendidos, completamente pelada, nua em pelo, mostrando muito mais do que os seios que costumava exibir em público.

Esse comportamento selvagem era o lado mais radical da artista, normalmente ativado pela música, diante do palco, com doses extras de entorpecentes. Cássia Eller, com sua “voz de trovão”, como bem definiu Rita Lee – a mãe de todas as roqueiras brasileiras –, talvez tenha sido nossa última encarnação da tríade sexo, drogas e rock’n’roll, numa mistura autodestrutiva que a levou precocemente, com apenas 39 anos…

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Nascida há seis décadas, no Rio, ela viveu entre Brasília, Belo Horizonte e Santarém, no Pará, como uma autêntica peregrina, devido ao trabalho do pai, um sargento do exército, e desafiou padrões desde o berço, de uma maneira particular, que conjugava timidez e atrevimento.

As entrevistas com Cássia Eller eram um desperdício. Ela era incapaz de dizer uma palavra que acrescentasse algo ao que já havia sido dito. Mas, quando cantava, acontecia exatamente o contrário. Aquele bicho do mato se transformava num bicho solto, incendiário, radical, selvagem.

Cássia é o exemplo da artista que se guardava para seu ofício, devotada à música e a todas as consequências de uma entrega total, que não dissociava as atitudes da vida de uma experiência vital da profissão, correndo nas veias como seu próprio sangue. Assim era Elis.

Não chega a ser coincidência que a intérprete de “O Bêbado e a Equilibrista” tenha morrido ainda mais jovem que Cássia, vítima de overdose de cocaína e uísque, aos 36 anos, em 1982. Muito depois, Cássia surgia de modo um tanto atravancado, com um primeiro disco que contemplava nomes da Vanguarda Paulista como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Mário Manga e Hermelino Neder e heróis do rock nacional da geração 80, como Renato Russo e Cazuza, capturando pérolas do porte de “Que o Deus Venha”, adaptação para texto de Clarice Lispector.

Era um trabalho de artista, cheio de fôlego e atitude, mas potente demais para ser consumido pelo mercado. Com “O Marginal”, de 1992, Cássia dobrava a aposta, mantinha a cabeça erguida e deixava claro que a sua posição no mundo era ao lado dos excluídos, dos vagabundos e delinquentes…

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Tudo começou a mudar em 1994, quando ela foi patrocinada por Guto Graça Mello, produtor de uma gigante multinacional do mercado fonográfico, que resolveu adaptar o diamante bruto da voz de Cássia, deixando-o menos bruto e mais palatável.

Foi quando ela conheceu os primeiros sucessos com “Malandragem”, “E.C.T.”, “1º de Julho”, “Lanterna dos Afogados”, “Socorro”, e etc., cantando Cazuza, Marisa Monte, Nando Reis, Carlinhos Brown, Renato Russo, Herbert Vianna, Arnaldo Antunes e Djavan, em sua delicada interpretação para “Pétala”, feito impensável até ali.

Um ponto de inflexão foi “Veneno AntiMonotonia”, dirigido por Wally Salomão, em espetáculo-homenagem a Cazuza, uma das grandes inspirações de sua vida, da bandana aos modos debochados no palco. Cássia contava que descobriu que podia “cantar gritando” quando ouviu Cazuza berrar o blues “Down em Min” no rádio.

Mas os gritos ficariam definitivamente no passado (exceção feita ao Rock in Rio de 2001, com destaque para o hit do Nirvana) a partir do álbum “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo”, que vendeu 300 mil cópias.

A partir daí, Cássia se associou ao repertório de Nando Reis, e emprestou grandiosidade a canções menos eloquentes do que supunha sua interpretação, basta ouvi-las com cantores de menor tarimba. “O Segundo Sol”, “Meu Mundo Ficaria Completo”, “As Coisas Tão Mais Lindas”, “Um Tiro no Coração” (que Cássia gravou lindamente com Sandra de Sá) são exemplos.

O álbum de 1999 ainda trazia excelentes versões para “Mapa do Meu Nada”, de Carlinhos Brown, “Gatas Extraordinárias”, de Caetano, “Palavras ao Vento”, de Marisa Monte e Moraes Moreira, “Esse Filme eu Já Vi”, de Luiz Melodia e Renato Piau, dentre outras, comprovando o talento de Cássia no ofício de dar voz e vida a canções.

Ainda era possível entrever o espírito marginal e vanguardista na captura de pérolas do submundo musical como “Maluca”, de Luís Capucho, em registro arrebatador, ao mesmo tempo melancólico e carregado de tensão. “Aprendiz de Feiticeiro”, de Itamar Assumpção, era outro acerto de redescoberta.

O estrondoso sucesso atraiu os holofotes da MTV, que propôs o tradicional “Acústico” para a artista. Cássia não se conteve e comprovou sua ascensão, cantando Chico Buarque, Riachão, Édith Piaf, Gilberto Gil, Tião Carvalho, Mutantes, Beatles, Nação Zumbi e o rapper Xis, numa confluência que talvez só ela fosse capaz de realizar, àquela altura, na música popular brasileira.

Cássia, num único movimento, abria concessões à indústria e a retalhava, com sua voz indomável e uma postura iminentemente selvagem. O furacão do sucesso e a onda da aclamação acabaram por engoli-la, e Cássia submergiu…

Fugindo do stress de compromissos que ela não tinha mais saúde nem saco para cumprir, a cantora passou mal durante uma caminhada na praia, em que acabou tendo um princípio de enfarte e, ao ser atendida por médicos que desconheciam a sua condição de alcóolica em tratamento contra a abstinência, recebeu remédios na veia que induziram uma parada cardíaca fatal.

O legado da artista se dividiu entre a mistificação e o moralismo, faces de uma moeda que a colocou no olho do furacão do show bis, onde o artista é mero produto e qualquer atitude vira publicidade. As gravações de seus primeiros discos, relegadas desde sempre ao ostracismo, merecem ser tão ouvidas quanto os arrasa-quarteirões em ampla rotação midiática. Cássia Eller foi uma cantora extraclasse da MPB, que quando cantava rock, samba, jazz, balada: trovejava!

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